terça-feira, 13 de setembro de 2016

Relatos de Minhas Tentativas Falhas no Poliamor

Esse texto tava em uma zine que eu ia lançar e é meio grandinho e muito íntimo, falo aqui sobre minhas primeiras tentativas em viver relações não monogâmicas e os erros que cometi com outras pessoas e comigo mesme.
Ah, os nomes foram alterados, mas todas as pessoas citadas são reais...

Por Um Amor Livre De Ciúmes E Posse, Não Livre De Sentimentos e Cuidado Com O Outro

(Reflexões e Relatos Pessoais)

Eu estava recém separado de um relacionamento gay monogâmico que tinha durado um ano e três meses, no qual cheguei a morar junto até. Foi para mim um relacionamento cheio de novas experiências maravilhosas, como o fato morarmos juntos e também por ser uma relação completamente assumida e na qual ambos éramos amados e respeitados pela família um do outro, mas também de algumas traumatizantes relacionadas a ciúmes, desconfianças e invasão de privacidade. Tanto por essas experiências quanto por um desejo anterior de viver o “Amor Livre”, eu pus um fim na relação e saí dali decidido a não viver mais monogamia.
Foi nesse tempo que conheci o Gustavo*, um rapaz que morava em outra cidade do RJ e veio me procurar na internet por causa do meu zine TransViado#1. Ele se definia como Anarco-Punk, tinha um relacionamento aberto com uma menina com quem morava, e tínhamos várias coisas em comum como gostos musicais e posicionamentos ideológicos. Com pouco tempo de conversa (acho que um mês), combinamos de ele vir passar um fim de semana comigo. Daí ele veio, curtimos uma festa juntos em minha cidade com amigues e parentes meus e foi ótimo. Beijei várias meninas naquela festa com um ficante meu ali do meu lado, e em minha infantilidade por estar vivendo algo novo, aquilo parecia fascinante, eu estava me sentindo “o livre, o desapegado” haha. O problema é que virtualmente nossas ideias batiam muito; virtualmente ele falava sobre Teoria Queer, Feminismo e Consentimento; virtualmente, quando eu falei do quão pouco sexual eu sou e do que eu gosto ou não na cama, ele disse respeitar e entender tudo isso e que ele também preferia Gouinage. Mas pessoalmente, quando voltamos da festa e éramos só ele e eu na minha casa, ele mostrou ser outra pessoa. Sua fala e opiniões eram machistas; a forma como me falou que sua namorada não queria saber detalhes de seus outros relacionamentos nem mesmo quem eram me deixou com a impressão de que ela só estava nessa por ele, que ele que impunha a ela uma relação aberta. Me contou que tinha um jeito diferente de se relacionar com homens e mulheres, sendo mais frio e sexual com eles e mais delicado e carinhoso com elas, e percebi que o único motivo de ele me tratar com aquela atenção toda era por que o fato de eu ser N-b o fazia me enxergar como feminina e “frágil” (muito machista né?). Mas não foi apenas em suas palavras que ele me decepcionou, quando fomos pra cama ele ficou me questionando e insistindo sobre coisas que eu não queria fazer, de uma forma que mesmo estando na minha própria casa, eu não me senti seguro e confortável e acabei cedendo. Fizemos sexo com penetração e a experiência foi horrível, não tive nem prazer nem dor, apenas um total desconforto e vontade que ele fosse embora logo.  Na segunda-feira ele se foi, eu fiquei um bom tempo sem falar com ele e só quando houve a história do Mário, que eu vou contar à frente, que eu aproveitei e mandei uma mensagem dizendo que não o queria em minha vida nem mesmo como amigo.
Outro relacionamento que tive nessa época foi com a Patrícia. Ele teve até início antes do do Gustavo, mas como o dele acabou antes preferi citá-lo logo. A Patrícia eu conheci em um grupo de Poliamor no Whatsapp e fui me apaixonando. Assim como estar em uma relação não-monogâmica, me relacionar com uma mulher também era uma novidade pra mim, pois nos últimos dez anos eu só havia me relacionado com homens (tirando a fase da igreja que foi celibato total haha). Patrícia morava do outro lado do RJ, e embora já estivéssemos na época combinando uma viagem pra nos conhecer, nosso namoro ainda era apenas virtual, o que não diminuía em nada sua intensidade. Eu ainda lembro de cada foto e palavra trocada, cada música compartilhada e do quanto a cada dia minha paixão por ela aumentava.
E foi aí que chegou o Mário na minha vida: um garoto que trabalhava na minha cidade e morava numa cidade vizinha e que eu conhecia de vista, pois ele já tinha namorado uma amiga minha, e sempre achei lindo e agora deu em cima de mim de uma forma toda romântica mandando essa mesma amiga me entregar um guardanapo com seu telefone. Ele era monogâmico até então, e eu de cara deixei bem claro o que eu vivia: Falei sobre o Poliamor/Amor Livre e apesar de ele achar estranho, decidiu arriscar pois segundo ele “já gostava de mim há um bom tempo”. Como eu também já estava na dele, pois me apaixono fácil e como eu já disse sempre o achei lindo, tentamos. Tudo foi muito bom até eu perceber que estava muito apaixonado pelo Mário, e dando menos atenção à Patrícia. Com uma semana de namoro com ele tivemos problemas relacionados ao Poliamor (e aos ciúmes e inseguranças dele). Não sei se foi por ele ser homem ou se por morar mais perto, só sei que eu não queria perde-lo por nada, e isso fez com que eu agisse de forma muito errada. Primeiro propus que eu ficasse só com ele e a Patrícia e mais ninguém. Usei a justificativa de que ele era um menino, ela era uma menina, seriam dois casos completamente diferentes. No começo ele concordou, dizendo que realmente por ela ser mulher ele não sentia ciúmes dela. Mas fiquei sabendo que com as amigas dele ele falava outras coisas, que se sentia totalmente inseguro na nossa relação e que achava que eu não o amava porque senão, na visão dele, ele me seria suficiente. Tivemos mais problemas e aí por causa dessa dependência emocional que eu criei em cima dele eu fiz uma enorme burrada: Fui um insensível, um idiota, e terminei com a Patrícia para ficar numa relação monogâmica com ele. Ela tem depressão, assim como eu, e estava em um período ruim, de crise. Mas eu fui egoísta, não pensei nisso, não pensei nela, pensei apenas no que eu pensava ser melhor para ele e eu. Me afastei da Patrícia sem nem deixar ela cobrar satisfações. Meu namoro com ele durou mais alguns dias apenas, quando então ele terminou comigo repentinamente, alegando problemas familiares...
Eu perdi meu chão. Enchi a cara, tentei me matar. Fiquei três dias no escuro total, sem banho e dormindo com uma faca debaixo do travesseiro. Fui me reerguendo aos poucos, mas concluí que eu tinha sido um idiota, tinha me anulado, tinha aberto mão da minha liberdade e aquilo que eu acreditava por causa de uma outra pessoa. Além disso eu tinha sido frio e insensível com a menina. Falei para mim mesmo que eu não estava preparado para viver aquele tipo de relação e que voltaria a tentar ser monogâmico.
Tentei um namoro com um garoto que durou apenas um mês, e também um retorno com meu ex-marido. Nenhum dos dois deu certo.
Tudo isso aconteceu entre 2013/2014. Em 2015, depois que eu já tinha reatado minha amizade com Patrícia há muito tempo, e sempre ouvindo seus conselhos, decidi tentar a não-monogamia mais uma vez, e ela mesma me deu maior apoio, dizendo que eu tinha amadurecido bastante nesse tempo. Ela e um amigo dela, o Cláudio, vieram passar a páscoa comigo e eu aproveitei a oportunidade para pedi-la novamente em namoro. E ela aceitou <3. Eu estava também ficando com o Cláudio e esse foi um fim de semana maravilhoso, onde inclusive levei os dois para conhecerem minha família. Depois eles voltaram para sua cidade, o Claudio virou monogâmico, mas meu namoro com a Patrícia ainda durou até outubro. Mas dessa vez quem terminou foi ela por causa da distância, entre outras coisas.
Curiosamente, eu tinha voltado com o Mário também pouco tempo antes, mas dessa vez quem terminou com ele fui eu uma semana depois da páscoa porque ele estava inventando namorado que não tinha para me botar ciúmes e postando indiretas sobre Patrícia e Cláudio estarem lá em casa, ao invés de vir falar comigo. Aí eu vi que aquilo não ia dar certo nunca. Hoje ele está casado e feliz e somos bons amigos. Assim como Patrícia e eu somos ÓTIMOS amigos.
Tive outras paixões e namoros à distância que duraram tão pouco que nem vem ao caso contar agora. Mas em setembro conheci o César, do Espírito Santo, pelo Badoo e começamos a namorar à distância e hoje moramos juntos. Vim pro ES e ele é a única relação que tenho atualmente. Ele não conhecia o Poliamor e também fui eu que apresentei, mas ele gostou muito e se adaptou muito bem. Mas ainda temos muitos problemas como qualquer casal, ainda mais com minha depressão que me torna não muito fácil de lidar. Nesse meio tempo eu tive problemas com dois meninos também por mentirem/esconderem coisas de mim mesmo com toda a liberdade que eu dei, o que me mostrou que pessoas acostumadas a enganar e trair, mesmo não “precisando”, mesmo tendo liberdade, vão quebrar acordos. Infelizmente o próprio César foi uma delas, mas nossa relação continua. O outro, nós somos amigos hoje, mas relacionamento eu não consegui levar adiante não...
Durante esses três anos também, eu tive uma paixão com uma pessoa não binária que durou esse tempo todo mas so virou namoro mesmo ano passado, e acabou recentemente porque ela na aguentou a minha distância e frieza num período de crise.
Então em geral ainda sem querer machuco alguém e sou machucado, afinal a gente sempre cria uma expectativa ou alguém cria uma em cima da gente, mas após toda essa experiência (sem citar as monogâmicas que vivi antes) os muitos conselhos que recebi, textos e livros que li, reflexões que fiz, vejo que estou muito mais maduro realmente e ainda posso cometer erros, mas não os mesmo do passado.
Hoje eu sei o que quero e não abro mão disso por ninguém.Que quem me ama e quer estar comigo vai ter que respeitar minha liberdade e individualidade. Quero gente pra voar comigo, não pra me prender em gaiolas. E deixo isso claro logo que conheço a pessoa.
Sei que tenho que tomar cuidado coma paixão, com a idealização que se faz das pessoas e expectativas que se cria com relação a ela.
Sei também que tenho que tenho que tomar cuidado também com a forma com a qual lido com os sentimentos das pessoas para não brincar com eles, não iludi-las ou dar esperanças de coisa que não posso ou não quero cumprir.
Estou em busca de viver relações múltiplas sim, mas relações profundas, saudáveis, baseadas na sinceridade e no consentimento. E se não for pra ser assim, eu nem começo.


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